FIS 19 funde clima, agricultura e arte

A 19. edição da Formação Integrada para a Sustentabilidade traz como desafio “produzir uma exposição de arte que revele a urgência de caminhos para adaptação da agricultura brasileira às mudanças climáticas”.

Disciplina eletiva volta aos alunos de graduação da FGV em São Paulo, o FIS, como é conhecido esse curso, propõe a cada semestre um desafio real para que os participantes se aprofundem em um tema relevante da sustentabilidade e, ao mesmo tempo, desenvolvam um processo de autoconhecimento. Para tanto, são usadas referências como a Teoria U, do MIT, e a Transdisciplinariedade.

Ambas perspectivas evocam diferentes áreas de conhecimento e modos de experiência para gerar percepções do tema, do mundo e de si mesmo que vão além dos padrões e modelos mentais já sustentados pelos aprendentes. É nesse contexto que o corpo surge como dimensão relacional e de conhecimento, contando com a contribuição das abordagens de educação somática, dança contemporânea, jogos de improvisação, comunicação e ecossomática propostas pelo ConeCsoma.

Em breve, mais detalhes sobre o FIS 19.

Teoria da Relatividade abre novas dimensões perceptivas no retiro de inverno

A sétima edição das Imersões de Corpo e Movimento na Natureza aconteceu em São Lourenço da Serra, no interior de São Paulo, no fim de semana mais frio de todo o inverno. Mas assim como o tempo e o espaço, os participantes do retiro mudaram sua perspectiva do frio, a partir de experiências de corpo, movimento, contemplação e trocas mais que especiais, tanto pela palavra como por freqüências indizíveis da comunicação. Conectando micro dimensões do universo corporal, às macro dimensões do cosmos. Incluindo paralelos com a vida de cada um e as dinâmicas da sociedade.

Tudo isso, orientados pela investigação da Relatividade e seus desdobramentos para além da ciência. Se a Física já ensinou que tempo e espaço são dimensões relativas a um ponto de observação, o corpo nos indica que tudo depende da intenção. Sim, os fenômenos físicos continuam lá, mas podem passar despercebidos se não acionamos os sentidos para nos apropriarmos da relatividade.

Ao mergulhar em experiências que revelam as variações de tempo e espaço o grupo da imersão de inverno lançou conexões com fenômenos do próprio corpo, da sociedade, do ambiente e do cosmos. E reconheceu que o encontro entre leis da física e as intenções humanas pode gerar reflexões poderosas e poesia.

Explorar percepções da Relatividade foi um modo de estabelecer uma ponte para o que nos torna parte das dimensões macro e micro do universo. E também, para o constante diálogo com o que nos torna vivos e criadores-intérpretes da dança instigante que atravessa desde os átomos até os planetas e estrelas do firmamento.

Estavam abertas novas perspectivas para ser humano.

Vocações de uma cultura milenar e o #soswajãpi

Costuma gerar encantamento a expressão “cultura milenar”. Logo pensamos em povos antigos do Oriente, com suas tradições, referências estéticas singulares e conhecimento riquíssimo sobre o humano e o cosmos. Todos esses elementos se repetem do lado de cá: os povos indígenas das Américas, muitos deles ocupando terras localizadas no Brasil, são representantes de culturas ameríndias de milhares de anos, com uma longa história registrada em mitos inspiradores; com tecnologias de convívio com a floresta que fazem parte de sua biodiversidade e resultaram no desenvolvimentos de inúmeras espécies agrícolas, de uma medicina e cosmética com base na natureza; com modos de existência em comunidade, permeados por um imaginário que integra cognição, espiritualidade e criatividade, e por rituais que ajudam a dar sentido à vida, fortalecendo laços humanos e a própria saúde do corpo. Em termos de conhecimento contemporâneo, todos esses elementos são almejados hoje por uma sociedade urbana e industrializada sob o nome de sustentabilidade.

Mas os ranços e preconceitos sócio-históricos diminuem e negligenciam a grandeza desses povos e de suas contribuições para nossa civilização. Ao ponto de ameaçarem suas terras, sua cultura, sua existência. Atualmente, vivemos um dos momentos mais agressivos e drásticos dessa relação, com a conivência às vezes velada, às vezes anunciada, do governo federal frente ao avanço de grileiros, madeireiros, garimpeiros e outros sobre as culturas milenares no Brasil e as suas terras. Qualquer nação que preserve suas raízes ou que reconheça a importância das tradições e culturas humanas consideraria isto inadmissível.

O grito mais recente de tantos povos hoje ameaçados veio com o #soswajãpi, desde o Amapá, onde as áreas tradicionalmente ocupadas pelo povo indígena Wajãpi e reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro, foi invadida por grupo armado e põe em risco a vida desses índios – um deles, já assassinado. Ainda assim, esperançosos de fazer valer os laços que os ligam ao seu país, pediram ajuda e a presença do Estado, para evitar que entrassem em situação de conflito. Ouve-se mais silêncio, do que respostas. E o tempo corre.

É preciso que os brasileiros assumam para si a condição de um país de cultura milenar, que a valoriza, preserva e pela qual exige respeito e a devida proteção do Estado. Caso contrário, uma frase célebre de Caetano Veloso e Gilberto Gil em outro contexto, passe a representar o horror anunciado: “O silêncio sorridente de São Paulo, diante da chacina.” Quero acreditar que não chegamos tão baixo, que somos capazes de reverter o momento histórico atual, e que merecemos a confiança dos povos indígenas que chamam esta sociedade para o diálogo e a convivência.

#soswajãpi

Foto: Heitor Reali – IPHAN