Entregadores escancaram o digital, o histórico e externalidades

A economia por aplicativos faz parte de um processo de digitalização da vida: tudo que existe passa a ter uma dimensão virtual. Isso vale para a natureza, como é o caso das florestas e do clima, monitorados por imagens de satélite e dados de todo tipo. E tb para os seres humanos, desde a comunicação e a construção de personas nas redes sociais até o monitoramento da pandemia da Covid-19.

Pode parecer divertido, às vezes, essencial em outras. Mas há efeitos colaterais. Entre eles, a digitalização da vida afasta as pessoas de perceber e expressar humanidade. Por exemplo, a sensorialidade presencial dos afetos, das relações e dos contatos é abafada por trocas mediadas por aparatos digitais e dados. É o caso dos sistemas de entrega por aplicativos, pelos quais os entregadores são reconhecidos pelo número de entregas, tempo despendido, trajetos realizados, estrelas recebidas, metas batidas etc.

Para que o “modelo de negócio” seja viável, o entregador deve ser visto apenas por sua existência digital. O modelo entra em colapso se encará-lo como um ser encarnado do ponto de vista fisiológico, subjetivo e de sua dignidade. Para o negócio, a satisfação de quem consome conta. A integridade de quem entrega, não. Seu desempenho deve ser compatível com o que estabelecem os algoritmos.

Apesar de tantos dados precisos, o app é calibrado tendo em vista uma abstração: a de que dinheiro é o valor máximo a ser gerado pela empresa. Por trás do discurso moderninho das startups, o que transparece é um capitalismo antigo e abusivo, que exclui da conta tudo que impede que o negócio de ser o mais rentável possível – incluindo corpos e almas. São as “externalidades”. Na época da colonização, uma lógica parecida foi exacerbada para justificar a escravidão.

Há quem diga que o sistema capitalista é inviável. Talvez ele seja possível se valor não se resumir a lucro e se as empresas deixarem a lógica das externalidades. Um desafio tão grande quanto equilibrar nossa relação com o digital, para garantir a sanidade e os laços da humanidade. Conjecturas que parecem pertencer a categorias distintas, mas que remetem a um mesmo princípio: que o valor do vivo venha antes do valor de troca.

*Do artigo Quanto vale a corrida?, publicado na coluna de Ricardo Barretto, na Revista Página22
*Fotos: Periferia em Movimento

Afetos do corpo, efeitos da tecnologia

Os efeitos da tecnologia sobre o humano são efeitos sobre o corpo. A cultura de uso intenso dos smartphones significa, por exemplo, que dedicamos muitas horas imersos na relação com as telas , com um campo visual estreito e bidimensional, e um conjunto de estímulos limitados e muito focados na visão, convocando a cabeça baixa e alguns poucos movimentos de mãos e dedos. Ou seja, a riqueza da sensorialidade e das habilidades do universo corporal, em todas as suas camadas e conexões internas e com o ambiente, é evocado de modo acanhado.

Isso representa menos estímulo ao caráter conectivo reticular do corpo e mais estímulo a uma conectividade reativa e impulsiva. Esbravejamos, reclamamos, replicamos … mas a criatividade, o devaneio, o pensamento capaz de alçar voos na imensidão da mente ficam mais propensos a voos de galinha do que voos de condor.

Se pensarmos que o corpo humano foi moldado por milhares de anos para reconhecer, afetar e ser afetado pela riqueza da troca presencial, dá para imaginar a aridez que representa o contato virtual. Dá para entender também tanta sensação de vazio, tanta dificuldade de diálogo, tanta aspereza no trato em sociedade.

Dificilmente construiremos alternativas às conjunturas que nos desagradam sem mudanças de mentalidades. E transformar fluxos cognitivos implica transformações do corpo – nossa dimensão mais singular, eloquente e onipresente. Assim, além de arregaçar as mangas pelo que se quer, pode ser muito fértil redescobrir o corpo que é ecossistema por dentro e que compõe redes em fluxo por fora.

É preciso reconhecer se cada um de nós está perdendo vitalidade, fechando-se no corpo próprio. É preciso cultivar a respiração, o toque em si e no outro, o abraço, o afeto, o contato. É preciso experimentar liberdade de movimento, de expressão estética, de ludicidade, de descanso e de degustação do universo interno. Corpos com vitalidade, com escuta aberta a perceber seu caráter integrado, são corpos ativamente políticos. Mantêm o sistema nervoso estimulado a reconhecer os fenômenos integrados do mundo.

*Do artigo COMO NOSSO CORPO É AFETADO PELA TECNOLOGIA DIGITAL, de Ricardo Barretto: pagina22.com.br
*Imagens: Salman Khoshroo

Relação entre deserto e floresta revela conexões como as do corpo

Godzilla foi o nome dado à nuvem de areia vinda da África em direção à América no Hemisfério Norte. Mas esse fenômeno não é novo e tem um lado bem menos assustador. Hoje é sabido que a areia do Deserto do Saara tem participação importante na formação de chuvas e na fertilização dos solos da Amazônia.

Sim, a floresta tem uma relação íntima com o deserto e nos mostra como o planeta é interconectado. Também faz pensar que se em dimensões tão gigantescas existe uma conexão entre fenômenos e formas de vida na natureza, é mais do que esperado que ações humanas que parecem isoladas tenham desdobramentos sobre o meio ambiente.

E que no corpo humano, a mesma dinâmica acontece: nossos órgãos e nossos hábitos, as químicas que nos formam e as que trazemos de fora para dentro – voluntária ou involuntariamente – têm enorme influência sobre a vitalidade do corpo. Reconhecer essa integração é perceber a poesia da fisiologia e assumir

Abaixo, referências para você ir mais fundo nessa reflexão ecossomática.

O que é a ‘nuvem de poeira Godzilla’, que viaja 10 mil km do Saara para as Américas

Do Saara à Amazônia: 4 impactos bons e ruins da poeira que viaja do deserto até a América Latina

Como o deserto do Saara participa do regime de chuvas da Amazônia, a 5 mil km de distância 

Vídeo da Nasa mostra como Amazônia é fertilizada pelo deserto do Saara

 

Foto de Sara Lusitano e imagens de satélite da NASA