Vocações de uma cultura milenar e o #soswajãpi

Costuma gerar encantamento a expressão “cultura milenar”. Logo pensamos em povos antigos do Oriente, com suas tradições, referências estéticas singulares e conhecimento riquíssimo sobre o humano e o cosmos. Todos esses elementos se repetem do lado de cá: os povos indígenas das Américas, muitos deles ocupando terras localizadas no Brasil, são representantes de culturas ameríndias de milhares de anos, com uma longa história registrada em mitos inspiradores; com tecnologias de convívio com a floresta que fazem parte de sua biodiversidade e resultaram no desenvolvimentos de inúmeras espécies agrícolas, de uma medicina e cosmética com base na natureza; com modos de existência em comunidade, permeados por um imaginário que integra cognição, espiritualidade e criatividade, e por rituais que ajudam a dar sentido à vida, fortalecendo laços humanos e a própria saúde do corpo. Em termos de conhecimento contemporâneo, todos esses elementos são almejados hoje por uma sociedade urbana e industrializada sob o nome de sustentabilidade.

Mas os ranços e preconceitos sócio-históricos diminuem e negligenciam a grandeza desses povos e de suas contribuições para nossa civilização. Ao ponto de ameaçarem suas terras, sua cultura, sua existência. Atualmente, vivemos um dos momentos mais agressivos e drásticos dessa relação, com a conivência às vezes velada, às vezes anunciada, do governo federal frente ao avanço de grileiros, madeireiros, garimpeiros e outros sobre as culturas milenares no Brasil e as suas terras. Qualquer nação que preserve suas raízes ou que reconheça a importância das tradições e culturas humanas consideraria isto inadmissível.

O grito mais recente de tantos povos hoje ameaçados veio com o #soswajãpi, desde o Amapá, onde as áreas tradicionalmente ocupadas pelo povo indígena Wajãpi e reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro, foi invadida por grupo armado e põe em risco a vida desses índios – um deles, já assassinado. Ainda assim, esperançosos de fazer valer os laços que os ligam ao seu país, pediram ajuda e a presença do Estado, para evitar que entrassem em situação de conflito. Ouve-se mais silêncio, do que respostas. E o tempo corre.

É preciso que os brasileiros assumam para si a condição de um país de cultura milenar, que a valoriza, preserva e pela qual exige respeito e a devida proteção do Estado. Caso contrário, uma frase célebre de Caetano Veloso e Gilberto Gil em outro contexto, passe a representar o horror anunciado: “O silêncio sorridente de São Paulo, diante da chacina.” Quero acreditar que não chegamos tão baixo, que somos capazes de reverter o momento histórico atual, e que merecemos a confiança dos povos indígenas que chamam esta sociedade para o diálogo e a convivência.

#soswajãpi

Foto: Heitor Reali – IPHAN

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