Como nosso corpo é afetado pela tecnologia digital e como isso impacta as relações sociais

Se pensarmos que o corpo humano foi moldado por milhares de anos para reconhecer, afetar e ser afetado pela riqueza da troca presencial, dá para imaginar a aridez que representa o contato virtual. Dá para entender também tanta sensação de vazio, tanta dificuldade de diálogo, tanta aspereza no trato social – justamente na era da sociedade em rede

A busca da palavra única, autoritária, coincide com a busca de um território sem variações, com uma trama digital sem matizes, com perspectivas sem nuances, diversidade ou consistência. Planificar é um verbo fundamental desse projeto, que se opera em todas as dimensões. Na ambiental, por exemplo, impõe-se queimando, desmatando, drenando a diversidade e achatando a tridimensionalidade natural dos sistemas vivos. E assim prossegue na pauta de costumes, na cultura, na educação, na ciência.

Análises políticas, denúncias jornalísticas, argumentos científicos, alertas sociológicos e psicológicos proliferam para apontar os descaminhos que vivemos hoje no Brasil. Mas em meio à verborragia planificada no digital, um elemento é negligenciado apesar de onipresente.

Para acessá-lo, vale resgatar uma premissa fundamental de diferentes teorias da Comunicação que é o fato de a tecnologia exercer grande influência sobre os modos de perceber, pensar, dialogar, interagir e expressar-se na sociedade. Se convocamos o auxílio da neurociência para compreender esta perspectiva da sensorialidade humana, temos que a cognição não é um produto isolado do cérebro, mas um desdobramento do arranjo integrado de todo o corpo, incluindo suas diferentes estruturas e camadas, suas habilidades sensórias e perceptivas, suas emoções, impulsos, sentimentos e expressões psicomotoras, e suas relações com o ambiente.

Portanto, os efeitos da tecnologia sobre o humano são efeitos sobre o corpo. E como tem passado o corpo dos brasileiros conectados às redes digitais? A cultura de uso intenso dos smartphones significa, por exemplo, que passamos muitas horas imersos na relação com as telas, com um campo visual estreito e bidimensional, e um conjunto de estímulos limitados e muito focados na visão, convocando a cabeça baixa e alguns poucos movimentos de mãos e dedos. Ou seja, a riqueza da sensorialidade e das habilidades do universo corporal, em todas as suas camadas e conexões internas e com o ambiente, é evocado de modo acanhado.

Isso representa menos estímulo ao caráter conectivo reticular do corpo e mais estímulo a uma conectividade reativa e impulsiva. Esbravejamos, reclamamos, replicamos … mas a criatividade, o devaneio, o pensamento capaz de alçar voos na imensidão da mente ficam mais propensos a voos de galinha do que voos de condor.

O simulacro de contato com o outro, via digital, também reduz as trocas presenciais, que são onde a imagem do outro ganha tridimensionalidade, gestos dos pés à cabeça, micro expressões no rosto, nas mãos, nos membros e tronco; onde a conversa tem nuances de temperatura, empatia, desacordos, negociações mediadas por uma orquestração psicobiofísica contínua, bem diferente das frequências homogêneas e planificadas do digital.

Se pensarmos que o corpo humano foi moldado por milhares de anos para reconhecer, afetar e ser afetado pela riqueza da troca presencial, dá para imaginar a aridez que representa o contato virtual. Dá para entender também tanta sensação de vazio, tanta dificuldade de diálogo, tanta aspereza no trato em sociedade.

Não digo que esta sensação que paira no ar de um desarranjo constante seja apenas pela carência do corpo. É claro que todo o contexto político, social, econômico e ambiental que temos vivido exerce pressão implacável sobre todos nós. Mas o fato é que a ausência da primazia ancestral do corpo na contemporaneidade humana alimenta um desalento muitas vezes difícil de reconhecer, de dar nome, de dedicar cuidado.

A pauta aqui não é uma mera questão de sedentarismo, de ir ou não à academia. O assunto é o corpo em suas camadas entrelaçadas … todas elas: as físicas, as subjetivas, as transcendentais. O corpo entorpecido pelo estresse e pelo digital vai afrouxando e deixando de viver esses entrelaçamentos. E de construir sentido a partir deles.

A falta de experiência conectiva do corpo destreina o sistema nervoso – também uma rede viva – a operar, buscar e fazer conexões; a reconhecer e degustar os modos integrados de ser e de estar no mundo. Aumenta, assim, a dificuldade de ser conectivo para além da pele e de ser integrador através do digital. E justamente na era das redes…

Mas esse não é um texto para ser coroado com um emoji de lágrima escorrendo. Este é um chamado para os que são ativistas, os que sentem falta de entrosamento, os que carregam o peso da solidão, os que não conseguem fugir da raiva, os que não conseguem superar a apatia, os que não escutam, os que não abraçam. Tantas condições fragilizadas de comportamento, tendo em comum o mesmo catalizador: a falta de corpo em camadas.

Dificilmente construiremos alternativas às conjunturas que nos desagradam sem mudanças de mentalidades. E transformar fluxos cognitivos implica transformações do corpo – nossa dimensão mais singular, eloquente e onipresente. Assim, além de arregaçar as mangas pelo que se quer, pode ser muito fértil redescobrir o corpo que é ecossistema por dentro e que compõe redes em fluxo por fora.

É preciso reconhecer se cada um de nós está perdendo vitalidade, fechando-se no corpo próprio. É preciso cultivar a respiração, o toque em si e no outro, o abraço, o afeto, o contato. É preciso experimentar liberdade de movimento, de expressão estética, de ludicidade, de descanso e de degustação do universo interno. Corpos com vitalidade, com escuta aberta a perceber seu caráter integrado, são corpos ativamente políticos. Mantêm o sistema nervoso estimulado a reconhecer os fenômenos integrados do mundo. Estão preenchidos e aptos a lidar com as impermanências de hoje, e a instigar a conectividade com os demais. É o que diz o neurônio-espelho e milênios de aprendizado humano pelo contato, pela observação e pela experiência conjunta.

Num momento em que aparecem poucas alternativas além do espernear, dar a chance para o inusitado, o simples, o que está escondido no trivial, pode ser tão efetivo e ousado como foi o movimento das mulheres de Atenas na guerra do Peloponeso. Então dedique uma semana a experimentar seu corpo de outro modo. Que seja um segredo seu, mas experimente.

Perceba que toda ação é um sinal de vida do corpo. Andar na rua é modificar a paisagem de um espaço tridimensional. Respirar é cultivar diálogo entre o ambiente e o sangue. Cruzar olhares é assimilar outro humano único como você. Tocar-se é ativar seu universo sensorial. Permita-se pequenas transgressões de seus padrões. Divirta-se com suas estranhezas e dos outros. Busque atividades para acessar as camadas entrelaçadas esquecidas.

Se não surtir efeito, sempre haverá a rotina digital de todo o dia. Mas se acender algo diferente em seus sentidos, se brotarem desdobramentos que vão além do corpo, continue a experiência na semana seguinte e na outra … e na outra…

*Artigo publicado em 15 de setembro, pela Revista Página22. Acesse aqui

O Corpo para Educadores e Facilitadores – oficina

 

Como aproveitar as potências do corpo na formação de pessoas e facilitação de grupos?
Aprimore-se na oficina que acontece de 28 e 29 de setembro, em São Paulo. Inscrições aqui

 

20190601_201408Educadores, profissionais de RH, facilitadores, coaches e psicólogos demandam modos instigantes de sensibilizar e engajar seu público, gerar e partilhar conhecimento, e de estimular escuta e abertura das pessoas. Existem muitas técnicas e abordagens para alimentar cada uma dessas dimensões, mas há um fator essencial para dar a sintonia fina em todas elas: o corpo.

Seja no aspecto de percepção de si mesmo durante a atuação profissional, seja para orquestrar um grupo, modular tempos e intensidades, apropriar-se da qualidade cênica de experiências, nutrir a capacidade de criação e improviso, e a habilidade de aproveitar repertórios próprios e também as oportunidades que surgem espontaneamente em cada grupo. O universo corporal é o lugar de percepção e expressão primordial de cada um e da relação com o outro. Apropriar-se das suas potências sensoriais e comunicativas, das suas metáforas e da sua condição integrada com o mundo à volta significa abrir-se a mergulhos mais profundos e voos mais abrangentes no trabalho com grupos.

20190601_193326Pensando nisso, Ricardo Barretto, mentor do ConeCsoma, concebeu as Oficinas para Educadores e Facilitadores, reunindo técnicas, aprendizados e modos autênticos de evocar o corpo na atuação com grupos. Trata-se de abordagens desenvolvidas nos últimos anos, a partir de seu trabalho com equipes de empresas, estudantes universitários, e nos cursos e retiros promovidos pelo ConeCsoma. Estas abordagens têm raiz em estudos de comunicação e sustentabilidade, Body-Mind Centering®, técnicas de educação somática, dança contemporânea e experiência em jogos de improvisação.

 

20190603_103455A ideia é conectar educadores e facilitadores às potências que só o universo corporal faz emergir, por sua característica de sistema conectivo, entrelaçado em camadas internas e subjetividades, com habilidade de perceber e dialogar com o ambiente, os outros e aspectos biofísicos e imateriais da vida.

A próxima oficina acontece nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo, no Espaço ConeCsoma*, e terá como foco:

  • identificação de potências do corpo para o trabalho de cada profissional, valorizando e respeitando o repertório de cada um
  • caminhos de consciência corporal, exploração do movimento e percepção de informações sutis do ambiente
  • abordagem ConeCsoma de sensibilizção e ativação do corpo para acessar a inteligência do coletivo
  • abordagem ConeCsoma de sensibilizção e ativação do corpo para acessar novas possibilidades de criação e refinamento de atividades de curta, média e longa duração, tanto nas etapas de elaboração como de execução
  • laboratório de práticas e estratégias para integrar o corpo a contextos formativos
  • rodas de partilha e aprofundamento
  • materiais e referências de apoio

Inscreva-se aqui

Para mais informações: ricardo@conecsoma.com.br 

*O ConeCsoma fica na R. da Consolação, 2685 – sl 5, a duas quadras das estações Paulista (linha amarela) e Consolação (linha verde) do metrô, em São Paulo.

Sobre Ricardo Barretto

20180802_fis17_encin_din1_rbComunicólogo e educador somático, entende que fluxos informativos vão além das mídias: incluem das menores partículas ao cosmos, passando pelo corpo e as relações que o atravessam. Sua formação segue uma perspectiva integrada, conectando frentes tão diversas como a graduação em Relações Internacionais (PUC-SP) e a formação em dança contemporânea; pós-graduações em Jornalismo Político (PUC-SP), em Redes Digitais e Sustentabilidade (ECA-USP) e Comunicação e Educação (ECA-USP, em andamento). Além da formação como Educador do Movimento Somático pelo Body-Mind Centering®.

Foi nos estudos e atuação em Dança, Educação Somática e Comunicação para Sustentabilidade que se interessou pelas conexões que o corpo estabelece com dimensões extracorporais. Essa tem sido sua estrada de reflexão e trabalho, que deu à luz o projeto ConeCsoma. Um desdobramento de uma parceria de 10 anos com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP, que o aproximou da área de Educação e da facilitação de grupos, por meio das experiências corporais, tanto junto a um público jovem, quanto aos mais maduros. E hoje ganha novos rumos com a reflexão e a atuação prática em uma emergente área de conhecimento nas ciências: a Ecossomática.

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Sobre o ConeCsoma

fis18_fldnkrsIniciativa que encara o corpo como rede viva que se relaciona com o mundo por meio de sensação, movimento e pensamento. Propõe mover e explorar o universo corporal para gerar vigor e sensibilidade. E também descobertas, conhecimento e transformações que vão além do próprio corpo.

O projeto ConeCsoma ajuda a acessar essa potência para indivíduos, grupos e organizações, por meio de conteúdo digital, de um espaço-laboratório com aulas e oficinas, e de atividades para promover desenvolvimento pessoal, inovar a educação, e levar novas perspectivas a atividades que estimulam a inteligência coletiva.

Veja exemplos da nossa atuação em Educação e Impulso para Organizações.