Relação entre deserto e floresta revela conexões como as do corpo

Godzilla foi o nome dado à nuvem de areia vinda da África em direção à América no Hemisfério Norte. Mas esse fenômeno não é novo e tem um lado bem menos assustador. Hoje é sabido que a areia do Deserto do Saara tem participação importante na formação de chuvas e na fertilização dos solos da Amazônia.

Sim, a floresta tem uma relação íntima com o deserto e nos mostra como o planeta é interconectado. Também faz pensar que se em dimensões tão gigantescas existe uma conexão entre fenômenos e formas de vida na natureza, é mais do que esperado que ações humanas que parecem isoladas tenham desdobramentos sobre o meio ambiente.

E que no corpo humano, a mesma dinâmica acontece: nossos órgãos e nossos hábitos, as químicas que nos formam e as que trazemos de fora para dentro – voluntária ou involuntariamente – têm enorme influência sobre a vitalidade do corpo. Reconhecer essa integração é perceber a poesia da fisiologia e assumir

Abaixo, referências para você ir mais fundo nessa reflexão ecossomática.

O que é a ‘nuvem de poeira Godzilla’, que viaja 10 mil km do Saara para as Américas

Do Saara à Amazônia: 4 impactos bons e ruins da poeira que viaja do deserto até a América Latina

Como o deserto do Saara participa do regime de chuvas da Amazônia, a 5 mil km de distância 

Vídeo da Nasa mostra como Amazônia é fertilizada pelo deserto do Saara

 

Foto de Sara Lusitano e imagens de satélite da NASA

Percepções de tempo são postas em xeque pela pandemia

O caráter integrado da economia, das condições de saúde e da estabilidade social e política no Brasil indicam que é cada vez mais curto o prazo de sustentação pacificada do ethos da desigualdade, no contexto da pandemia. E todos nós sentiremos, em um tempo ou outro, os efeitos nocivos dessa lógica

Alastra-se junto com o Covid-19 um desafio tão invisível e onipresente quanto o próprio vírus. O convívio com a pandemia e seus desdobramentos presentes e futuros pressionam a nos adequarmos e reconhecermos ritmos de tempo que estão muito além do nosso costume. Tanto em situações triviais do dia a dia, como na vida política e econômica, em dimensões de grandeza planetária e histórica.

Quem entra no regime de confinamento sente a restrição do ir e vir e também o peso do tempo que não passa; a incerteza da duração do que está por vir; a nostalgia pelo que era conhecido; o tempo de aceitação e resignação; os lampejos de frustração, raiva, tristeza, inconformismo. As nossas emoções são definidoras da sensação de tempo.

Para além da aflição da vida privada de cada um, ainda nos tornamos espectadores de outras dinâmicas de tempo que não controlamos. Por exemplo, a demora de líderes mundiais, como no Brasil e nos Estados Unidos, em abdicar de suas crenças e assimilar a grandeza e urgência da crise. É como se fôssemos estudiosos da psique observando um experimento emblemático sobre negação e recalque.

Outra evolução de tempo que observamos é a da mudança da percepção de muitos eleitores que acreditavam na potência desses líderes inaptos e insensíveis. A cada dia são convidados a reconhecer o equívoco do seu voto e de muitas de suas convicções. Enquanto alguns apoiadores desistem, outros resistem. E assim determinam a longevidade da sustentação política desses pseudo-governantes.

Todos esses exemplos revelam a relação intrincada entre percepção de tempo e concepções de vida. O quanto cada um de nós demora para fazer leituras dos contextos que vivemos, que ajudamos a construir e sustentar? Como o grau de resistência em assumir que erramos – no modo como nos envolvemos em uma situação específica ou em dinâmicas do mundo – influencia o tempo das mudanças sociais?

No caso específico do Brasil inserido na pandemia, temos uma questão muito clara que se avoluma com o passar dos dias. A desigualdade social é sustentada por modelos político econômicos que se perpetuam há tempos e, principalmente, por modelos mentais que avalizam a desigualdade como traço cultural e dos modos de vida no País. Um exemplo muito sintomático da pandemia é o de patrões dispensando trabalhadores e trabalhadoras domésticos sem manter seus rendimentos ou algum valor compensatório.

Uma atitude que seus autores justificam pela lógica da economia do lar. Mas que de fato é mais uma expressão da dinâmica de exclusão e do limite da compaixão nas relações em sociedade. Limite dado pela quantidade de renda, cor da pele, local de moradia, costumes. E que se traduz numa decisão imediata do empregador: “o tempo da nossa relação termina aqui.” O instantâneo perpetuando o histórico.

A ironia é que o caráter integrado da economia, das condições de saúde e da estabilidade social e política no Brasil indicam que é cada vez mais curto o prazo de sustentação pacificada do ethos da desigualdade, no contexto da pandemia. E todos nós sentiremos em um tempo ou outro os efeitos nocivos dessa lógica.

A crise que atravessamos, identificada como fenômeno de saúde, escancara que uma inverdade, mesmo repetidas muitas vezes, tem prazo de validade. Não adianta fazer crescer o bolo para distribuí-lo depois, em algum momento que nunca chega. Não é viável manter as disparidades da economia, da educação, da saúde, só porque se acredita que é são considerar fechado um sistema que é de fato aberto e integrado. Assim como quem se recusa a assimilar a pandemia acaba se infectando com o vírus, a conta da desigualdade social chega, ainda que tarde.

E essa constatação se liga a uma outra: a de que a opção por olhar a realidade de modo segmentado se sustenta no tempo, desde que haja um pacto de crença coletiva nessa perspectiva. A construção do tempo pelas emoções, razões e experiências humanas é possível. Porém, não está incólume aos tempos dos fenômenos entrelaçados.

Aquela mesma propensão a criar cenários ilusórios no contexto socioeconômico é a que faz muitos acreditarem que as condições ambientais de uma região, um país, um planeta podem ser camufladas com discursos e dados falseados. A dinâmica desses sistemas é viva e não respeita a elaboração de argumentos e resenhas que estejam dissociados da experiência in vivo.

Todas essas dimensões de tempo – da vida cotidiana às revoluções sociais e planetárias – encontram na pandemia atual sua grande apoteose. Estamos frente à frente com o prazo de validade do imaginário que perpetua relações predatórias na sociedade e no planeta. No horizonte adiante paira a perspectiva de que os tempos que conhecíamos ficarão apenas na memória. Novos tempos se anunciam, não importa o quão propensos estamos à adaptação, assimilação e reinvenção dos nossos modos de ser humano neste mundo.

*Mentor do ConeCsoma, Ricardo Barretto escreve mensalmente para a Revista Página22.
Acesse o artigo original aqui

[Foto: A Rodoviária do Plano Piloto, um dos maiores centros de concentração de pessoas da capital federal, tem sua rotina alterada devido aos cuidados contra o Covid-19. Crédito: Isac Nóbrega/ Fotos Públicas]

Diferentes sentidos de emergência para mover os anos 2020

Nossa probabilidade de seguir adiante aumentará se formos um pouco piegas, um tanto alarmistas e muito participativos. Temos sinais de que essa combinação é capaz de bons frutos, como mostram os exemplos de Greta Thunberg, dos voluntários nas praias do Nordeste e do plantio de árvores para conter o avanço do Saara

Por Ricardo Barretto*

Brincar que a virada do ano inaugura um novo momento na vida é um rito de respiro, que se configura a partir de retrospectivas, esperanças e desejos para o futuro. Essa tradição de criar um imaginário subjetivo e coletivo de renovação ganha outro tom na passagem para 2020. A partir de agora, as promessas e desejos de cada pessoa implicam uma contrapartida planetária.

Se você pediu conquistas materiais para um futuro melhor, este será desfrutado apenas em meio a alguma vitalidade ambiental. Para quem desejou coisas boas para os filhos ou netos, as alegrias de um caminho auspicioso dependem de algum equilíbrio climático. Se o pedido é por saúde, o corpo são ainda precisará de um ambiente sem catástrofes para se perpetuar. O voto é de paz? Ela depende cada vez mais da disponibilidade de recursos naturais e das condições de vida na sociedade. Mudanças na política? Qualquer cenário mais harmônico para este ou outro país se materializa apenas se as nações lidarem com os desafios socioambientais, que variam nos territórios, mas fazem parte de uma realidade integrada e inescapável. Somos a civilização da emergência!

Alguns podem ler essas palavras com desânimo, vislumbrando a nuvem ameaçadora no horizonte. Mas existe um aspecto poético e uma chance de redenção para a humanidade neste século XXI: estamos involuntariamente unidos em uma trajetória comum. Os conhecidos, os incógnitos e aquela pessoa ao lado cujas ideias soam intoleráveis. Incluem-se aí até mesmo os que têm mais recursos e poderão melhor se adaptar a contextos inóspitos caso o clima e a biodiversidade entrem em colapso. Porque sobreviver assim seria algo como viver em Marte: um exercício difícil, cheio de restrições, bastante isolado e provavelmente frustrante. Não soa como uma boa aposta num mundo onde o isolamento digital e o esgarçamento das relações de carne e osso já produzem uma epidemia de depressão.

Para chegar até o fim do século, podemos renovar as esperanças e lançar muitos desejos ao além. Mas para cada fio de otimismo temos que empenhar doses de envolvimento prático com a construção de um porvir que só será bom para cada um na medida em que leve em consideração o sistema integrado. Mora aí um outro sentido da palavra emergência: aquilo que surge do improvável, das contradições, das relações entre parte e todo, dos modos como uma ação alimenta outra, dos fenômenos que se desdobram exponencialmente.

Até outro dia ainda parecia aceitável vivermos com agropecuária sem floresta, cidades sem resiliência, consumo sem limites, economia sem natureza, política sem o socioambiental. Mas a opção de viver no planeta sem prestar atenção a sua essência entrelaçada chega à exaustão. E continuar por esse caminho significará perecer. É o que oficializaram os últimos cenários científicos sobre o clima; os incêndios na Califórnia, na Sibéria e na Austrália; as secas e enchentes na África e na Ásia; o fracasso da Conferência do Clima em Madri.

Parece piegas? Alarmista? Talvez. Mas nossa probabilidade de seguir adiante aumentará se formos um pouco piegas, um tanto alarmistas e muito participativos. Temos sinais de que essa combinação é capaz de bons frutos, como mostram os exemplos de Greta Thunberg e dos voluntários nas praias do Nordeste.

Vale resgatar ainda outro exemplo bastante simbólico e pragmático. Nas bordas do Saara, no Norte da África, os países do Sahel se juntaram para criar a Grande Muralha Verde frente ao avanço do deserto, que ameaça a economia, as condições de vida de milhares de pessoas e o equilíbrio ambiental de uma região enorme (foto acima). E estão fazendo isso plantando milhões de árvores em uma faixa de 8 mil quilômetros que será um sorvedouro de carbono da atmosfera e irá conectar diferentes países, perspectivas políticas, economias, culturas, contextos sociais. Nada mais piegas, alarmista e integrador.

Outro caldo bem temperado com pieguice, alarmismo e chamado à ação vem da campanha Countdown, da plataforma digital de conhecimento TED. A embaixadora da campanha é Christiana Figueres, aquela que relativizou os sinais avessos da política para liderar a costura do Acordo de Paris sobre o clima, em 2015. E agora evoca um grande movimento mundial, que une nomes de peso, informação sobre riscos, esperança para mudanças, e estabelecimento de ações concretas para lidar com a urgência climática.

Esses quatros exemplos falam das qualidades humanas que emergem para enfrentar desafios. Falam de como percepções sobre incômodos, riscos e oportunidades podem ser transmutadas em movimento, em ação. Falam das potências do intelecto e das habilidades do ser humano que emergem da integração entre órgãos, tecidos vivos, fluidos, impulsos elétricos, sensorialidades e da relação constante com o ambiente e as pessoas. Mas pode ser que esse discurso faça sentido e mesmo assim não mobilize o leitor a explorar suas possibilidades de influência e mudança em meio ao seu cotidiano.

Bem, a dose a mais de empolgação necessária pode estar da pele para dentro. Para quem se flagra como um corpo sem impulso para transformação – sem preenchimento até – o novo ano é a chance para cultivar práticas que alimentem sua “propriocepção”. Como assim? Prestar atenção ao caráter sistêmico do corpo é reconhecer, em uma dimensão reduzida, a mesma condição integrada que se replica nos fenômenos do planeta. Uma espécie de empatia “ecosubjetiva” que revela como micro e macromudanças podem ter efeitos relevantes para a reorganização do sistema como um todo. Mais do que isso, ativar a consciência corporal e possibilidades de criar outros modos do corpo mover estimula o sistema nervoso a formar sinapses que dão conta de pensamentos e ações fora do padrão cotidiano. E é essa mudança de padrões que se faz crucial neste momento.

As grandes e pequenas decisões, que darão o tom das enormes transformações que devem se operar nos próximos dez anos, virão de seres humanos que preenchem seu cotidiano de um modo ou de outro; que alimentam ou negligenciam seu universo de percepção e expressão no mundo; que percebem ou ignoram o caráter sistêmico do planeta e da sociedade.

Assim como o meio ambiente não sustenta mais ser tratado como uma obra de engenharia ou um repositório de recursos, os corpos humanos que almejam atravessar este século precisam abdicar de antigos modos de ser, reconhecendo e nutrindo suas complexidades e potências mobilizadoras. Honrar essa propensão à renovação gera condições para que emerjam as contrapartidas que o planeta vivo demanda de nós.

*Mentor do ConeCsoma, Ricardo Barretto escreve mensalmente para a Revista Página22.
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[Foto: Great Green Wall]