Teoria da Relatividade abre novas dimensões perceptivas no retiro de inverno

A sétima edição das Imersões de Corpo e Movimento na Natureza aconteceu em São Lourenço da Serra, no interior de São Paulo, no fim de semana mais frio de todo o inverno. Mas assim como o tempo e o espaço, os participantes do retiro mudaram sua perspectiva do frio, a partir de experiências de corpo, movimento, contemplação e trocas mais que especiais, tanto pela palavra como por freqüências indizíveis da comunicação. Conectando micro dimensões do universo corporal, às macro dimensões do cosmos. Incluindo paralelos com a vida de cada um e as dinâmicas da sociedade.

Tudo isso, orientados pela investigação da Relatividade e seus desdobramentos para além da ciência. Se a Física já ensinou que tempo e espaço são dimensões relativas a um ponto de observação, o corpo nos indica que tudo depende da intenção. Sim, os fenômenos físicos continuam lá, mas podem passar despercebidos se não acionamos os sentidos para nos apropriarmos da relatividade.

Ao mergulhar em experiências que revelam as variações de tempo e espaço o grupo da imersão de inverno lançou conexões com fenômenos do próprio corpo, da sociedade, do ambiente e do cosmos. E reconheceu que o encontro entre leis da física e as intenções humanas pode gerar reflexões poderosas e poesia.

Explorar percepções da Relatividade foi um modo de estabelecer uma ponte para o que nos torna parte das dimensões macro e micro do universo. E também, para o constante diálogo com o que nos torna vivos e criadores-intérpretes da dança instigante que atravessa desde os átomos até os planetas e estrelas do firmamento.

Estavam abertas novas perspectivas para ser humano.

Mobilizar o corpo para modificar paradigmas

Temos ouvido com frequência que o governo cria “cortina de fumaça” e que “desvia o foco do que é mais importante” – leia-se a economia e a reforma da previdência. Mas a insanidade do governo lhe confere uma consistência admirável no projeto que é o mesmo desde a campanha: modificar a trama civilizatória do país.

Neste sentido, nada é mais relevante e fundamental que as iniciativas que afetam as subjetividades, o imaginário, os modos de dialogar, de expressar-se, de nutrir sentimentos e laços, de construir espírito de comunidade. É ingênuo, opaco ou conivente quem acredita que bastará o país “reencontrar o rumo” da economia, se a sociedade estiver em frangalhos.

E reduzir-nos a cacos tem sido o projeto do governo atual, que em alguns meses já colhe seus frutos, como muito bem retratou a Eliane Brum em artigo no EL PAÍS Brasil É o que atestam psicanalistas e o diagnóstico de que pessoas estão “adoecendo de Brasil”. É o que atestam as pequenas censuras de cada cidadão nos seus modos de viver, trabalhar e conversar … ou calar. É o que atesta o estado de impermanência que nos acomete em situações pontuais, mas constantes, como as falas do presidente e medidas oficiais que transbordam desumanidade, distorcem fatos e criam verdades sem lastro … doa a quem doer. Eliane fala da importância da cultura e da educação para enfrentar esse contexto – não à toa elas estão sob ataque intenso.

Concordo plenamente. Mas acredito que há algo mais, que remete a fenômenos menos recentes e mais profundos do Brasil, mas também do mundo Ocidental. Dos mais ricos aos mais pobres, não importa de qual corrente política, somos fruto de um modelo de formação das pessoas que negligencia sua complexidade. A grande maioria dos projetos educacionais são voltados à constituição de profissionais para o mercado de trabalho. Das atividades mais simples, aos grandes pesquisadores e CEOs.

Estamos todos unidos numa perspectiva de ser humano que nos reduz a um agente de produção e a alguns indicadores de sucesso aparente, deixando de lado nossas sensibilidades, nossas singularidades no modo de viver e de conectar com outros; nossos desejos e sonhos que não combinem com os caminhos conhecidos do mercado; nossas pontes com os fenômenos e ciclos da natureza; nossas pequenas loucuras criativas, potências para a arte, capacidades para cultivar experiências que se traduzem sob o nome de espiritualidade.

Uma das raízes dessa cultura ocidental de séculos é a segmentação entre corpo e mente (e alma e natureza). Este dogma permitiu construir a noção de que importante é o que você expressa racionalmente e socialmente. Todo o resto são elementos secundários da vida humana e hierarquicamente inferiores.

Mas eis que quando as pessoas começam a “adoecer de Brasil”, somos confrontados com o entrelaçamento entre todas aquelas camadas que pareciam distintas e separáveis. O que você faz e pensa atravessa o que sente, que atravessa as trivialidades do dia-a-dia, e seu ente social e sua vida privada e sua condição natural e todos os indizíveis que atravessam o estar vivo.

sentinel_by_jack_troloveSe não reconhecemos e degustamos a complexidade que somos, nosso repertório fica limitado para construir empatia, para entender a condição sistêmica do meio ambiente em colapso, para relativizar a política e também para engrandecer a política, e o diálogo, e a importância de sermos uma forma de vida coletiva que é um golpe de sorte no cosmos… E que é mais importante do que ganhar uma discussão e certamente do que banalizar destinos trágicos que acometem os oprimidos, os que são mortos e aqueles em depressão.

Mas séculos de um mantra raso e às vezes macabro – de que ser humano se resume a cérebro e a papéis sociais – não se inverte de uma hora para a outra. E, certamente, não acontece apenas pelo intelecto e pela palavra, que são parte dos domínios que nos trouxeram até aqui.

É preciso nutrir as sensibilidades. Mas não só aquelas que testemunhamos enquanto expectadores de uma obra de arte instigante. É preciso corpo! Não o das academias, que é fruto daquela mesma lógica superficial. Corpo em camadas, entrelaçado às relações, ao ambiente, às transcendências. Corpo que vai para a rua, mas também o corpo que gera conhecimento de si e do todo, porque revela as dimensões micro e macro da vida em suas dinâmicas internas e modos de conectar-se e traduzir o que está à volta. Corpo que muda perspectivas quando abre a sensorialidade e percebe dentro e fora pela experiência, pelo encantamento e não só pelo discurso. Corpo que acolhe ao descobrir suas consistências, mesmo quando o mundo à volta desmorona. E, por essa potência, é capaz de transformar.

Abrir-se ao corpo complexo, nossa condição onipresente no mundo, é refutar os limites que nos engessam e nos oprimem neste momento histórico. E recusar quando a sensação de horror convida à paralisia! Os caminhos para isso existem, mas certamente há que se farejar, pois se esgueiram pelas brechas, entre tantos padrões. Tenho buscado com o ConeCsoma trazer uma contribuição.

Mobilizar o corpo integrado é modificar paradigmas.

Imagem: “Sentinel”, por Jack Trolove

Desmatamento revela política atravessando a biodiversidade e o corpo

O forte aumento no desmatamento apontado por números do INPE (instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) foi considerado pelo governo brasileiro como mentirosos. Refutar dados científicos de um desmatamento alarmante é ignorar a condição sistêmica da vida no planeta. E a correlação entre economia, sociedade e, sim, cultura, com a biodiversidade.

O livro “The Ecology of Eden”, de Evan Eisenberg, traz uma boa referência sobre o assunto, mostrando como o declínio da diversidade de um ecossistema é acompanhado pelo declínio na diversidade cultural da sociedade que o habita. Nessa perspectiva, faz sentido que um governo dedicado a enfraquecer a cultura do próprio país, também esteja focado em devastar a natureza que o ocupa.

depositphotos_81394422_xl-2015.jpgDe uma perspectiva ecosomática, é possível ir ainda mais longe na reflexão: atentar contra a diversidade do ambiente é uma medida que faz todo o sentido para um governo que é contra a diversidade dos corpos que vivem interna e externamente, natural e culturalmente, de modo integrado e interdependente. Tanto na floresta, como nas cidades. Esse governo é menos incoerente do que parece.

Pressionar contra o movimento que ele põe em prática, é uma questão de corpo, alma, ciência, política e economia.