Gadgets, o virtual e o corpo que sabe de si

Um efeito da era digital em rede é que tudo o que é vivo passa a ter uma tradução e uma dimensão de existência em forma de dados e imagens. Para o corpo não é diferente. Assim como suas interações com o ambiente e a sociedade tornam-se conteúdo multimídia nas redes sociais, a estrutura e o funcionamento do corpo podem ser mensurados e visualizados como informação digital. E isso não é mais privilégio de cientistas.

Na vida privada, um app no celular ou uma pulseira no braço mapeiam o desempenho na corrida, a qualidade do sono, as condições de pressão e temperatura do corpo e além. E eventualmente esses dados acabarão compartilhados em alguma rede digital – social, médica, da publicidade, do governo, de empresas. O conhecimento sobre o corpo se amplia e ele passa a ter uma vida própria enquanto conjunto de dados que navega os meios digitais.

Não faltam questões fascinantes para refletir sobre esse contexto, mas destaco uma pegadinha em especial. Ao confiar no digital para reconhecer dimensões do vivo, corremos o risco de dispensar os sentidos biofísicos e subjetivos do corpo para perceber a si mesmo e ao ambiente que habita. O digital traz as informações como algo definitivo, números, estatísticas, imagens. Os dispositivos que monitoram é que passam a acompanhar os processos do vivo. Nós ficamos com os registros digitais desses processos.

As experiências de vivenciar o sono e a falta dele, de reconhecer o caminhar ou a respiração no esporte, de lutar contra doenças … vão perdendo a demanda da atenção a si mesmo. O dispositivo X ou Y resume todo o processo. O humano fica com o foco “livre” para desempenhar suas tarefas do dia-a-dia.

Mas essa percepção de si convocando o universo corporal está na essência do Homo sapiens sapiens – a espécie que sabe … e que sabe que sabe … e que sabe de si.

O saber de si significa abrir escuta para si mesmo, significa incomodar-se com seus limites e fragilidades, empolgar-se com suas potências e descobertas, encantar-se com a beleza de ser um sistema vivo integrado, que pensa e sente e é codependente da natureza que o cerca. Não apenas um sistema que pode ser mensurado em suas funções para ser corrigido e aprimorado, ou que produz imagens e discursos a serem avaliados em uma rede digital.

Está aí um bom desafio aos humanos do século XXI. Como desfrutar das possibilidades inebriantes dos recursos digitais e das personas virtuais sem que todo o sabor da vida seja transferido para essas dimensões? Como combinar a experiência corpórea em todas as suas camadas às dimensões da experiência virtual? Se evitar o digital é provavelmente impossível e um desperdício, de outro lado tem sido cômodo e comum reduzir a produção de sentido no viver para as dimensões digitais. Demanda pouca energia do corpo e entretém.

Isto seria suficiente se o corpo existisse apenas no nível de realidade em que respiramos e nos alimentamos e reproduzimos. Mas o corpo envolve também os níveis do afeto, da troca social presente, de produção da cultura no coletivo, de experiências simbólicas e de transcendência, sem as quais fica deficiente em camadas que lhe são próprias. Daí a depressão, a ansiedade, a solidão, o medo.

É verdade que todos esses casos podem ser remediados com pílulas. Mas se o que elas fazem é aplacar as sensações e emoções decorrente dos vazios e desentendimentos de si, estamos produzindo um discurso de que viver na era digital demanda desligar as dimensões mais sensórias, sutis e complexas do corpo.

Estamos diante de um dilema. O mesmo corpo que se beneficia em ganhar uma dimensão de existência virtual, que encontra atalhos no digital para a percepção e para o entendimento de seus processos, e que torna-se aparentemente pleno e potente nos discursos que produz nas redes digitais, acaba padecendo frente à incompletude desse viver virtual, incapaz de nutrir todas as camadas e sutilezas do corpo encarnado.

É preciso ao mesmo tempo ouvir o corpo na sua demanda por uma experiência completa e ludibria-lo na sua capacidade de se entregar e se viciar na dimensão digital da sua existência. Como fazer isso? Um bom caminho é cuidar dos dois elementos essenciais ao humano. Um é sua qualidade de sistema vivo – e todo sistema vivo tem movimento. Portanto, mova-se! O outro é a qualidade do Homo sapiens sapiens de saber de si. Não se contente com o que dizem os gadgets e as redes. Convoque seus sentidos corporais para saber de si. Busque meditar, ampliar escuta, percepção, consciência corporal, ter experiências de corpo encarnado presente no ambiente, tocar, ser tocado … e, às vezes, abra mão da timeline e dos gadgets.

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Impressões que atravessam do mundo antigo à era digital

O que têm em comum as ações triviais de passear pelo centro histórico de uma cidade e de digitar num teclado? Elas têm a ver com o momento em que o corpo passou a imprimir palavras no papel. Eu explico.

Em meados do século XV, o desenvolvimento da prensa móvel abre espaço para um novo modo de guardar e transmitir informações, de pensar, de organizar coisas e de relação com o ambiente. Isso porque a lógica das máquinas de impressão – e dos livros organizados em linhas, parágrafos, capítulos, volumes – estimularam uma perspectiva de sistematização da realidade. Encarando-a a partir de princípios matemáticos e de ordenamento.

Um exemplo são as representações gráficas do globo terrestre. Definir territórios de modo geométrico leva ao aprimoramento das rotas de navegação, à demarcação de fronteiras e de propriedades de terras, e traz para o espaço urbano a busca por uma forma estética sistematizada, por meio de ruas, edifícios, bairros, equipamentos urbanos.

Essa transformação no entendimento e na relação com o espaço estende-se até outros fenômenos político-sociais, como as missões de colonização e evangelização. Isso porque substituíam a mentalidade e o espaço nativos pelas formas de concepção dos conquistadores europeus. E mesmo nas metrópoles europeias surge uma cultura de imposição para lidar com os problemas da expansão urbana pós-revolução industrial. A organização e o controle do espaço tornam-se uma prioridade para governos, políticos e sociedade. E a arquitetura é aplicada para mudar o estilo de vida dos cidadãos.

A sistematização da vida e dos ambientes exprime uma forma de tornar o espaço conhecido, sem ameaças, dominado. É uma forma de habitar pela conquista do ambiente. O espaço, a sociedade, os corpos passam a ser moldados assim como a palavra impressa molda as palavras e as lógicas do pensamento sobre o papel.

Esse modelo mental torna-se tão arraigado que, mesmo na era digital e da comunicação em rede, ele continua impresso na geografia das cidades e nos corpos que digitam.

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Ocupações de corpo presente marcam também a era digital

Palavra de ordem nesse início de século XXI, ocupar é uma ação que evoca a presença humana seja em movimentos políticos, em manifestações culturais, no convívio em espaços públicos. E mais do que a presença, a configuração de sentido ao local e ao contexto que se ocupa por meio da interação humana. Não à toa, num momento da história em que tanto se busca novos sentidos do viver, proliferam-se as ocupações de todo o tipo. Em comum, a conexão entre pessoas, lugares e contextos cultuais, políticos e sociais, construindo territórios de temporalidades variadas. Olha só!

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