Performance emerge de aula no mestrado em sustentabilidade (FGV)

Um dos princípios norteadores da linha de Sustentabilidade no Mestrado para a Gestão da Competividade (FGV-EAESP) é a transdisciplinaridade. Em outras palavras, a evocação e conexão de diferentes conhecimentos e modos de fazer para estimular novos olhares e caminho para que potências de cada participante e do grupo se expresse de modo vivo.

É nesse contexto que são propostas aulas de formação integrada e, nesse espaço, algumas experiências de corpo e movimento. Em março, aconteceu uma delas, sob a condução de Ricardo Barretto, mentor do ConeCsoma que participa do núcleo de formação do Centro de Estudos em Sustentabiliade (FGVces), responsável pelo mestrado.

A partir de princípios de Klauss Vianna sobre a relação entre corpo e texturas do ambiente para gerar movimento, foi desenvolvida uma experiência para aprofundar a conexão dos quatro grupos de trabalho existentes na turma 4 do mestrado. Esses grupos são dedicados a projetos com temáticas da sustentabilidade e seu desenvolvimento inclui a implicação de si mesmo em todo o processo de aprendizagem e produção de conhecimento. Do receio inicial em lidar com a possibilidade de dança na sala de aula, os alunos passaram a se entregar à proposta e acabaram por produzir uma performance coletiva, digna de conceitos como arte contemporânea e complexidade.

Se é difícil relatar a força da experiência e a reverberação no grupo, algumas fotos ajudam a dar um gostinho da performance.

FIS 18 potencializa percursos formativo em sua primeira imersão

Formar pessoas a partir de uma perspectiva integrada, transdisciplinar, que reconheça complexidades e diferentes níveis de realidade no mundo é uma tarefa que demanda estratégias fora do convencional. É com esse foco que a Formação Integrada para a Sustentabilidade reúne corpo, conversa, natureza, interação, escuta, relação, estranhamento e reflexões com sentido no seu processo formativo.

Neste sentido, viagens de campo, que deslocam o aluno dos ambientes e dos modos de pensar padronizados, são fundamentais. No fim de semana de 23 e 24 de fevereiro realizamos a microimersão do FIS, que é o primeiro grande momento no semestre de conexão entre os alunos.

Dessa vez, fomos para o Parque das Neblinas, em Mogi das Cruzes, onde pudemos desenvolver experiências marcantes, como revelam algumas das imagens produzidas pelo profissional de imagens Arthur Boccia e pela equipe do FGVces (Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP, responsável pelo FIS).

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Essa já é a 18a edição dessa disciplina eletiva, e a cada ciclo as surpresas e aprendizados da pareceria com o FGVces revelam que um processo formativo eficiente é aquele que é vivo, que segue diretrizes mas não se enrijece em fórmulas. É desse modo que levamos os estudantes a vivenciar dimensões socioambientais e de si mesmo, tendo como norte um projeto referência. O deste semestre trata de Turismo de Base Comunitária. Saiba mais aqui.

Perspectiva integrada para a sustentabilidade? Não deixe o corpo de fora

Não é incomum ouvir que corpo e ambiente são indissociáveis, mas nem sempre reconhecemos de fato o quanto isso é norteador na vida humana. Por coincidência, três bons exemplos apareceram esta semana na mídia. E suscitam um questionamento importante sobre a relação entre corpo e sustentabilidade.

O primeiro exemplo vem do independente Mother Jones, que levanta casos e estudos para mostrar como as mudanças climáticas afetam o sistema nervoso de diferentes maneiras. Uma delas revela-se na preocupação e o estresse que o assunto gera em muitas pessoas, principalmente frente à inação de governos. Também, o impacto de desastres naturais sobre a saúde mental, que pode acarretar disrupção social. depressão, estresse pós´traumático e suicídio. E ainda o efeito das ondas de calor que podem afetar a regulação neural do corpo, enfraquecendo nossa habilidade de lidar com emoções, gerando mais agressividade e menos empatia. Os impactos de mudanças nos padrões climáticos podem ser até maiores sobre comunidades tradicionais, relata Rowan Walrath, já que seus laços empíricos e subjetivos com os ciclos da natureza são ainda mais fortes.

Outro caso emblemático, destacado pelo The Ecologist, foi do levante em 15 de fevereiro de alunos em dezenas de escolas no Reino Unido, bradando sua preocupação com a deterioração do clima, a indignação com falta de ação dos políticos e a exigência de novas atitudes em relação ao problema global. Neste caso, temos uma ativação do sistema nervoso – e de todo o resto do corpo – saindo de um padrão de rotina e apatia para um modo de ação contundente, que estimula químicas e ações de ordem individual e também impulsos e conexões do coletivo.

O terceiro destaque vem do Brasil, no artigo de Juliana Zellauy, refletindo na Envolverde sobre porque parece tão difícil ver as pessoas reagindo de forma mais efetiva aos desafios ambientais. Ele busca referência na neurociência e indica, em primeiro lugar, características físicas e químicas do cérebro, que nos fazem reagir muito mais prontamente a problemas próximos e materiais do que a questões mais distantes e impalpáveis, como as mudanças climáticas. Outro argumento é que o cérebro é menos propenso a pensar sobre o mundo de modo sistêmico – que é exatamente o enfoque das questões da sustentabilidade. E o terceiro argumento é que o sistema nervoso dá comandos de afastamento em relação a questões aflitivas – como as que são frequentemente reportadas pelos ambientalistas.

Como três soluções, Juliana aponta o uso de tecnologia e ampliação do sue ensino, para dar conta da realidade sistêmica; o treinamento da mente para aguçarmos a capacidade de um olhar sistêmico sobre o mundo; e manter a perspectiva positiva sobre a realidade, mesmo nas adversidades. Técnicas de meditação e atenção plena, bem como uma mudança drástica no enfoque do ensino – menos segmentado e mais sensorial e conectivo – são caminhos que dialogam com esse panorama.

Mas eu acrescento um outro elemento fundamental e que dialoga diretamente com a falta de perspectiva integrada que ainda impera no pensamento humano. Deixar de encarar as ações e reações humanas como produto do cérebro, do sistema nervoso … como se fossem entidades autônomas, isoladas e hierarquicamente superiores. Se tem algo que a neurociência vem descobrindo em detalhes é que todo o corpo é um grande sistema, integrando arranjos neurais a todas as demais estruturas, habilidades e funções do universo corporal. Se queremos adotar uma perspectiva mais integrada do mundo, é crucial adotar uma perspectiva mais integrada do próprio corpo. Ampliar a potência de cognição, passa desse modo por estimular formas de perceber e mover o corpo que estimulem seu caráter integrado e integrador – não apenas interno, mas relacionado ao próprio meio ambiente e às nossas relações.

Uma evidência dessa potência do corpo foi ressaltada pelo Guardian, que publicou um artigo especial sobre a relação entre atividade física e saúde do sistema nervoso, incluindo a capacidade de regeneração, mesmo na fase adulta e em idade mais avançada.

A proposta de atuação do ConeCsoma, de promover conexões a partir do corpo e para além dele, dialoga diretamente com essas constatações. Não é à toa que o projeto se localiza na perspectiva de integração do corpo, da comunicação e da sustentabilidade. Se vamos lidar com os enormes desafios do século XXI, como as mudanças climáticas, é fundamental começarmos a perceber e mover o universo corporal de maneiras mais conectivas.