Percepções de tempo são postas em xeque pela pandemia

O caráter integrado da economia, das condições de saúde e da estabilidade social e política no Brasil indicam que é cada vez mais curto o prazo de sustentação pacificada do ethos da desigualdade, no contexto da pandemia. E todos nós sentiremos, em um tempo ou outro, os efeitos nocivos dessa lógica

Alastra-se junto com o Covid-19 um desafio tão invisível e onipresente quanto o próprio vírus. O convívio com a pandemia e seus desdobramentos presentes e futuros pressionam a nos adequarmos e reconhecermos ritmos de tempo que estão muito além do nosso costume. Tanto em situações triviais do dia a dia, como na vida política e econômica, em dimensões de grandeza planetária e histórica.

Quem entra no regime de confinamento sente a restrição do ir e vir e também o peso do tempo que não passa; a incerteza da duração do que está por vir; a nostalgia pelo que era conhecido; o tempo de aceitação e resignação; os lampejos de frustração, raiva, tristeza, inconformismo. As nossas emoções são definidoras da sensação de tempo.

Para além da aflição da vida privada de cada um, ainda nos tornamos espectadores de outras dinâmicas de tempo que não controlamos. Por exemplo, a demora de líderes mundiais, como no Brasil e nos Estados Unidos, em abdicar de suas crenças e assimilar a grandeza e urgência da crise. É como se fôssemos estudiosos da psique observando um experimento emblemático sobre negação e recalque.

Outra evolução de tempo que observamos é a da mudança da percepção de muitos eleitores que acreditavam na potência desses líderes inaptos e insensíveis. A cada dia são convidados a reconhecer o equívoco do seu voto e de muitas de suas convicções. Enquanto alguns apoiadores desistem, outros resistem. E assim determinam a longevidade da sustentação política desses pseudo-governantes.

Todos esses exemplos revelam a relação intrincada entre percepção de tempo e concepções de vida. O quanto cada um de nós demora para fazer leituras dos contextos que vivemos, que ajudamos a construir e sustentar? Como o grau de resistência em assumir que erramos – no modo como nos envolvemos em uma situação específica ou em dinâmicas do mundo – influencia o tempo das mudanças sociais?

No caso específico do Brasil inserido na pandemia, temos uma questão muito clara que se avoluma com o passar dos dias. A desigualdade social é sustentada por modelos político econômicos que se perpetuam há tempos e, principalmente, por modelos mentais que avalizam a desigualdade como traço cultural e dos modos de vida no País. Um exemplo muito sintomático da pandemia é o de patrões dispensando trabalhadores e trabalhadoras domésticos sem manter seus rendimentos ou algum valor compensatório.

Uma atitude que seus autores justificam pela lógica da economia do lar. Mas que de fato é mais uma expressão da dinâmica de exclusão e do limite da compaixão nas relações em sociedade. Limite dado pela quantidade de renda, cor da pele, local de moradia, costumes. E que se traduz numa decisão imediata do empregador: “o tempo da nossa relação termina aqui.” O instantâneo perpetuando o histórico.

A ironia é que o caráter integrado da economia, das condições de saúde e da estabilidade social e política no Brasil indicam que é cada vez mais curto o prazo de sustentação pacificada do ethos da desigualdade, no contexto da pandemia. E todos nós sentiremos em um tempo ou outro os efeitos nocivos dessa lógica.

A crise que atravessamos, identificada como fenômeno de saúde, escancara que uma inverdade, mesmo repetidas muitas vezes, tem prazo de validade. Não adianta fazer crescer o bolo para distribuí-lo depois, em algum momento que nunca chega. Não é viável manter as disparidades da economia, da educação, da saúde, só porque se acredita que é são considerar fechado um sistema que é de fato aberto e integrado. Assim como quem se recusa a assimilar a pandemia acaba se infectando com o vírus, a conta da desigualdade social chega, ainda que tarde.

E essa constatação se liga a uma outra: a de que a opção por olhar a realidade de modo segmentado se sustenta no tempo, desde que haja um pacto de crença coletiva nessa perspectiva. A construção do tempo pelas emoções, razões e experiências humanas é possível. Porém, não está incólume aos tempos dos fenômenos entrelaçados.

Aquela mesma propensão a criar cenários ilusórios no contexto socioeconômico é a que faz muitos acreditarem que as condições ambientais de uma região, um país, um planeta podem ser camufladas com discursos e dados falseados. A dinâmica desses sistemas é viva e não respeita a elaboração de argumentos e resenhas que estejam dissociados da experiência in vivo.

Todas essas dimensões de tempo – da vida cotidiana às revoluções sociais e planetárias – encontram na pandemia atual sua grande apoteose. Estamos frente à frente com o prazo de validade do imaginário que perpetua relações predatórias na sociedade e no planeta. No horizonte adiante paira a perspectiva de que os tempos que conhecíamos ficarão apenas na memória. Novos tempos se anunciam, não importa o quão propensos estamos à adaptação, assimilação e reinvenção dos nossos modos de ser humano neste mundo.

*Mentor do ConeCsoma, Ricardo Barretto escreve mensalmente para a Revista Página22.
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[Foto: A Rodoviária do Plano Piloto, um dos maiores centros de concentração de pessoas da capital federal, tem sua rotina alterada devido aos cuidados contra o Covid-19. Crédito: Isac Nóbrega/ Fotos Públicas]