O piche sobre a diversidade brasileira

Um governo dedicado a enfraquecer a cultura do próprio país tende a ser conivente com a devastação da natureza que o ocupa

Por Ricardo Barretto*

Já está claro que parte da inércia do governo federal em atuar frente à invasão das manchas de óleo no litoral no Nordeste está conectada ao desmonte dos órgãos ambientais, à incompetência na gestão de crises e à política negligente contra o meio ambiente. Já vimos isso ocorrer em relação às queimadas devastadoras na Amazônia, apontando para um padrão de gestão e de ideologia.

Existe, no entanto, uma dimensão sutil que torna esses episódios ainda mais alarmantes, ao mesmo tempo em que revelam a consistência entre discurso e práticas do governo. O declínio na diversidade biológica de um ecossistema costuma ser acompanhado pelo declínio na diversidade cultural da sociedade que o habita. Essa é a perspectiva que Evan Eisenberg traz em seu livro The Ecology of Eden. Ele ajuda a explicar o fato de que um governo dedicado a enfraquecer a cultura do próprio país também seja conivente com a devastação da natureza que o ocupa.

A diversidade – seja biológica, seja cultural – afronta os valores defendidos pelo presidente da República, que encara a riqueza da paisagem como um cenário pasteurizado de resort internacional ou como as grandes extensões da monocultura planificada. Ao mesmo tempo em que riqueza cultural é equiparada, em seus discursos, a valores muito restritos do que é família e a uma reverência desmedida à cultura dos Estados Unidos. Certamente, não na força de seu caráter afroamericano, que em nada combina com frases segregacionistas do presidente, mais próximas do viés de supremacia branca, patriarcal, excludente e avessa às misturas.

As falas e atos falhos do presidente revelam uma raiz ainda mais profunda dessa questão. O incômodo com corpos nus, livres e que se manifestam artisticamente, engrossa o caldo antidiversidade que é mantido em fogo alto pelas políticas de governo, nos ministérios da Educação, dos Direitos Humanos e na Agência Nacional do Cinema (Ancine). Na perspectiva da ecossomática, atentar contra a diversidade do ambiente é uma medida coerente com um governo que é contra a diversidade dos corpos que vivem suas potências internas e relacionais, seu caráter natural e cultural, suas autonomias, integrações e interdependências.

[Ecossomática é um novo campo de estudo que vem se configurando em anos recentes e aborda relações entre ecologia e o corpo, em uma perspectiva de integração entre ser humano e natureza]

A cruzada contra a diversidade é fruto de um pensamento permeado por crenças, não por diálogo. Daí que fatos e dados sejam tão facilmente deturpados ou refutados, quando a missão é fragilizar a diversidade. Vimos as insinuações e notícias falsas sobre o envolvimento de ONGs tanto no caso do óleo no Nordeste como do desmatamento na Amazônia, assim como testemunhamos a contestação de dados científicos dando conta da extensão do impacto na costa brasileira ou o aumento dos índices de queimadas apontado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – que chegaram a ser classificados como mentirosos.

Os dois casos ilustram uma atitude deliberada em recusar a compreender ou a reconhecer o caráter sistêmico da vida, altamente associado ao elemento da diversidade. Na Amazônia, a correlação entre a floresta, a produção de chuvas, a regulação climática, o sustento de populações locais, o alicerce de culturas indígenas. Sem falar os aspectos econômicos das condições ambientais de produção da agropecuária e dos desdobramentos de imagem para o comércio de exportação. No litoral nordestino, a inércia do governo atenta contra a interdependência entre a vida marinha e o sustento das comunidades pescadoras, as atividades do turismo, os elos emocionais e culturais entre os habitantes locais e a zona costeira.

Se os corpos humanos manchados de petróleo e já adoecendo não parecem surtir grande efeito sobre o impulso à ação das autoridades, o que dirá das imagens do piche em animais e na paisagem, ou dos dados científicos que detalham a extensão dos riscos imediatos e futuros.

É a mesma frieza com que se encaram as manifestações sobre a cultura. Nesse campo, na verdade, a indiferença dá lugar a agressões, a investida contra a diversidade mal passa pela construção de discursos mitigadores. Está patente desde os vetos da Ancine até as afrontas verbais e burocráticas contra os artistas. Assim como proliferaram nas redes, nas ruas, nos discursos, no ambiente doméstico e na truculência policial os episódios de violência contra os corpos que representam a diversidade – as mulheres, os negros, a população LGBTQI.

Quando os discursos de campanha já anunciavam que as políticas sobre meio ambiente e cultura mudariam drasticamente, ao mesmo tempo em que prometiam uma dedicação inédita à “pauta de costumes”, não se tratavam de focos difusos de uma mente obstinada. Estava em questão – consciente ou inconscientemente – uma conexão fundamental entre o que representa a diversidade ecológica e a diversidade cultural para uma nação. Especialmente, para um país onde, goste-se ou não, esses são elementos de uma identidade nacional.

Quando as pessoas no Nordeste se mobilizam para limpar o litoral, dão uma resposta na mesma medida: uma manifestação que é de sobrevivência e ao mesmo tempo socioambiental, cultural e política. Um gesto de corpo e alma, que reafirma a relação entre cultura e ambiente e a possibilidade de conexões apartidárias e acima das ideologias. O apoio a esse e todos os movimentos que reforcem a relevância dos elementos da diversidade no Brasil é fundamental para estreitar os limites das ações e inações de governo que atentem contra esse valor vital.

*Ricardo Barretto é o mentor do ConeCsoma e escreve mensalmente na Revista Página22
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Foto: [Bombeiros fazem limpeza e monitoramento de praias do Litoral Norte baiano. > Elói Corrêa/GOVBA]

Desmatamento revela política atravessando a biodiversidade e o corpo

O forte aumento no desmatamento apontado por números do INPE (instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) foi considerado pelo governo brasileiro como mentirosos. Refutar dados científicos de um desmatamento alarmante é ignorar a condição sistêmica da vida no planeta. E a correlação entre economia, sociedade e, sim, cultura, com a biodiversidade.

O livro “The Ecology of Eden”, de Evan Eisenberg, traz uma boa referência sobre o assunto, mostrando como o declínio da diversidade de um ecossistema é acompanhado pelo declínio na diversidade cultural da sociedade que o habita. Nessa perspectiva, faz sentido que um governo dedicado a enfraquecer a cultura do próprio país, também esteja focado em devastar a natureza que o ocupa.

depositphotos_81394422_xl-2015.jpgDe uma perspectiva ecosomática, é possível ir ainda mais longe na reflexão: atentar contra a diversidade do ambiente é uma medida que faz todo o sentido para um governo que é contra a diversidade dos corpos que vivem interna e externamente, natural e culturalmente, de modo integrado e interdependente. Tanto na floresta, como nas cidades. Esse governo é menos incoerente do que parece.

Pressionar contra o movimento que ele põe em prática, é uma questão de corpo, alma, ciência, política e economia.