Crise climática: quem está preparado?

Artigo de agosto na coluna de Ricardo Barretto na Revista Página22

O olhar acostumado com fotografias e micro vídeos ilude o corpo a intuir que as paisagens são cenários estáticos. Perante a atenção fugaz, um relevo permanece impassível a menos que surja uma grande perturbação natural ou que o ser humano nele interfira de modo abrupto. No entanto, quem estuda as dinâmicas das paisagens ao longo do tempo ou quem com elas convive e se dedica a contemplá-las sabe que as rochas movem, as dunas deslocam, as curvas de rio se alteram. Um timelapse fotográfico revelaria uma geografia em movimento constante, impulsionado por ciclos e acasos da natureza, assim como o mover de cada ser enraizado ou ambulante habitando aquele mesmo lugar.

Quem estuda as dinâmicas da vida em escala macro ou quem testemunha seu desenrolar sabe que todos esses elementos em movimento e interações mais ou menos voluntárias são essenciais para a vitalidade do meio. É esse fenômeno de ambientes que existem como seres vivos que muitas vezes escapa ao flagra da imagem instantânea e contribui para uma percepção empobrecida do humano sobre o planeta. Essa falha perceptiva contribui também para considerar perturbações da ecosfera como fenômenos pontuais, dignos de pesar, mas que não pesam na dinâmica do todo e muito menos afetam a vida do expectador distante.

[Foto: Andreas Dress/ Unsplash]

Então surgem acontecimentos e notícias de que grandes mudanças estão em curso no local onde se mora… e com elas um susto … e com ele o medo … e com ele a negação… e com ela a inação. Quando esquecemos que o planeta é vivo, acreditamos que ele possa sempre ser consertado, remediado, reorganizado por uma entidade externa, como se faz com máquinas e objetos entregues a uma assistência técnica.

Parte da dificuldade do grande público em digerir as novas informações que chegam dos estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) está no fato de que, em um só golpe, põem-se em cheque as condições de vida de todos que habitam qualquer lugar, em um tempo histórico curto e em uma escala de efeitos enorme. Se as pessoas nem se lembravam que o planeta vive como um organismo, como podem elaborar que ele está padecendo e com ele podemos todos perecer?

Sentir-se à parte e à mercê do planeta vivo tem a ver com sentir-se à parte da condição coletiva da sociedade. O olhar com medo é um olhar solitário. É uma mirada egocêntrica que se confere um papel central na mudança e, assim, acredita-se incapaz de fazer algo significativo para modificar uma realidade tão maior. Ironia do destino é saber que foram os impulsos integrados de cada habitante ensimesmado que levou a mudanças em escala tão vasta. O tempo que resta pouco é, portanto, não só o de reverter processos, antecipar impactos, compensar desarranjos. O tempo que resta pouco é o de restituir a noção de que somos os diversos elementos de uma paisagem movediça que a alteram a cada instante por ações voluntárias e involuntárias.

O chamado da emergência climática é mais do que uma corrida pelo estabelecimento de novos processos econômicos, de novas soluções tecnológicas, de novas políticas de adaptação e mitigação. As mudanças do clima convocam um novo arranjo civilizatório, distante do paradigma do individualismo, da maximização de lucros em detrimento da vida, da construção de valor de existência a partir do vigor de consumo. E toda mudança civilizatória implica uma mudança da percepção do corpo sobre a realidade que habita, essencial para que emerjam outras éticas e pensamentos.

Um primeiro passo é vencer o vício sináptico que vincula uma tomada de ação concreta à ação hipotética do outro. Não levar em consideração se alguém mais vai agir implica, paradoxalmente, uma confiança cega no sistema integrado em que outras ações silenciosas estão sendo tomadas e que isso faz o sistema mover, não importa em qual intensidade.

Às vezes essa ação é uma mudança no consumo, às vezes é modificar a carteira de investimentos, discutir novas políticas na empresa onde trabalha, educar-se sobre a crise planetária, pedir atenção ao clima na escola das crianças, modificar decisões de negócio, definir novos rumos para a economia e a legislação, replantar o que está desmatado, eleger candidatas e candidatos atentos à questão climática, pressionar diferentes atores para que tudo isso aconteça; e é também postar e abrir conversas, mas certamente não é apenas uma dessas coisas.

A lógica das paisagens vivas que mudam ao sabor dos pequenos e grandes elementos que a compõem é que todos fazem parte de um sistema integrado. Todos os movimentos são necessários para um desdobramento, inclusive aqueles que estão para além da abordagem racional da realidade, como novos estímulos ao corpo que carece de outros caminhos sinápticos, sensoriais e afetivos para lidar com a humanidade e a natureza da qual faz parte. A única coisa que não cabe no sistema vivo que se perpetua é a inércia.

https://pagina22.com.br/2021/08/23/crise-climatica-quem-esta-preparado/

Impressões que atravessam do mundo antigo à era digital

O que têm em comum as ações triviais de passear pelo centro histórico de uma cidade e de digitar num teclado? Elas têm a ver com o momento em que o corpo passou a imprimir palavras no papel. Eu explico.

Em meados do século XV, o desenvolvimento da prensa móvel abre espaço para um novo modo de guardar e transmitir informações, de pensar, de organizar coisas e de relação com o ambiente. Isso porque a lógica das máquinas de impressão – e dos livros organizados em linhas, parágrafos, capítulos, volumes – estimularam uma perspectiva de sistematização da realidade. Encarando-a a partir de princípios matemáticos e de ordenamento.

Um exemplo são as representações gráficas do globo terrestre. Definir territórios de modo geométrico leva ao aprimoramento das rotas de navegação, à demarcação de fronteiras e de propriedades de terras, e traz para o espaço urbano a busca por uma forma estética sistematizada, por meio de ruas, edifícios, bairros, equipamentos urbanos.

Essa transformação no entendimento e na relação com o espaço estende-se até outros fenômenos político-sociais, como as missões de colonização e evangelização. Isso porque substituíam a mentalidade e o espaço nativos pelas formas de concepção dos conquistadores europeus. E mesmo nas metrópoles europeias surge uma cultura de imposição para lidar com os problemas da expansão urbana pós-revolução industrial. A organização e o controle do espaço tornam-se uma prioridade para governos, políticos e sociedade. E a arquitetura é aplicada para mudar o estilo de vida dos cidadãos.

A sistematização da vida e dos ambientes exprime uma forma de tornar o espaço conhecido, sem ameaças, dominado. É uma forma de habitar pela conquista do ambiente. O espaço, a sociedade, os corpos passam a ser moldados assim como a palavra impressa molda as palavras e as lógicas do pensamento sobre o papel.

Esse modelo mental torna-se tão arraigado que, mesmo na era digital e da comunicação em rede, ele continua impresso na geografia das cidades e nos corpos que digitam.

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