Mobilizar o corpo para modificar paradigmas

Temos ouvido com frequência que o governo cria “cortina de fumaça” e que “desvia o foco do que é mais importante” – leia-se a economia e a reforma da previdência. Mas a insanidade do governo lhe confere uma consistência admirável no projeto que é o mesmo desde a campanha: modificar a trama civilizatória do país.

Neste sentido, nada é mais relevante e fundamental que as iniciativas que afetam as subjetividades, o imaginário, os modos de dialogar, de expressar-se, de nutrir sentimentos e laços, de construir espírito de comunidade. É ingênuo, opaco ou conivente quem acredita que bastará o país “reencontrar o rumo” da economia, se a sociedade estiver em frangalhos.

E reduzir-nos a cacos tem sido o projeto do governo atual, que em alguns meses já colhe seus frutos, como muito bem retratou a Eliane Brum em artigo no EL PAÍS Brasil É o que atestam psicanalistas e o diagnóstico de que pessoas estão “adoecendo de Brasil”. É o que atestam as pequenas censuras de cada cidadão nos seus modos de viver, trabalhar e conversar … ou calar. É o que atesta o estado de impermanência que nos acomete em situações pontuais, mas constantes, como as falas do presidente e medidas oficiais que transbordam desumanidade, distorcem fatos e criam verdades sem lastro … doa a quem doer. Eliane fala da importância da cultura e da educação para enfrentar esse contexto – não à toa elas estão sob ataque intenso.

Concordo plenamente. Mas acredito que há algo mais, que remete a fenômenos menos recentes e mais profundos do Brasil, mas também do mundo Ocidental. Dos mais ricos aos mais pobres, não importa de qual corrente política, somos fruto de um modelo de formação das pessoas que negligencia sua complexidade. A grande maioria dos projetos educacionais são voltados à constituição de profissionais para o mercado de trabalho. Das atividades mais simples, aos grandes pesquisadores e CEOs.

Estamos todos unidos numa perspectiva de ser humano que nos reduz a um agente de produção e a alguns indicadores de sucesso aparente, deixando de lado nossas sensibilidades, nossas singularidades no modo de viver e de conectar com outros; nossos desejos e sonhos que não combinem com os caminhos conhecidos do mercado; nossas pontes com os fenômenos e ciclos da natureza; nossas pequenas loucuras criativas, potências para a arte, capacidades para cultivar experiências que se traduzem sob o nome de espiritualidade.

Uma das raízes dessa cultura ocidental de séculos é a segmentação entre corpo e mente (e alma e natureza). Este dogma permitiu construir a noção de que importante é o que você expressa racionalmente e socialmente. Todo o resto são elementos secundários da vida humana e hierarquicamente inferiores.

Mas eis que quando as pessoas começam a “adoecer de Brasil”, somos confrontados com o entrelaçamento entre todas aquelas camadas que pareciam distintas e separáveis. O que você faz e pensa atravessa o que sente, que atravessa as trivialidades do dia-a-dia, e seu ente social e sua vida privada e sua condição natural e todos os indizíveis que atravessam o estar vivo.

sentinel_by_jack_troloveSe não reconhecemos e degustamos a complexidade que somos, nosso repertório fica limitado para construir empatia, para entender a condição sistêmica do meio ambiente em colapso, para relativizar a política e também para engrandecer a política, e o diálogo, e a importância de sermos uma forma de vida coletiva que é um golpe de sorte no cosmos… E que é mais importante do que ganhar uma discussão e certamente do que banalizar destinos trágicos que acometem os oprimidos, os que são mortos e aqueles em depressão.

Mas séculos de um mantra raso e às vezes macabro – de que ser humano se resume a cérebro e a papéis sociais – não se inverte de uma hora para a outra. E, certamente, não acontece apenas pelo intelecto e pela palavra, que são parte dos domínios que nos trouxeram até aqui.

É preciso nutrir as sensibilidades. Mas não só aquelas que testemunhamos enquanto expectadores de uma obra de arte instigante. É preciso corpo! Não o das academias, que é fruto daquela mesma lógica superficial. Corpo em camadas, entrelaçado às relações, ao ambiente, às transcendências. Corpo que vai para a rua, mas também o corpo que gera conhecimento de si e do todo, porque revela as dimensões micro e macro da vida em suas dinâmicas internas e modos de conectar-se e traduzir o que está à volta. Corpo que muda perspectivas quando abre a sensorialidade e percebe dentro e fora pela experiência, pelo encantamento e não só pelo discurso. Corpo que acolhe ao descobrir suas consistências, mesmo quando o mundo à volta desmorona. E, por essa potência, é capaz de transformar.

Abrir-se ao corpo complexo, nossa condição onipresente no mundo, é refutar os limites que nos engessam e nos oprimem neste momento histórico. E recusar quando a sensação de horror convida à paralisia! Os caminhos para isso existem, mas certamente há que se farejar, pois se esgueiram pelas brechas, entre tantos padrões. Tenho buscado com o ConeCsoma trazer uma contribuição.

Mobilizar o corpo integrado é modificar paradigmas.

Imagem: “Sentinel”, por Jack Trolove

Impressões que atravessam do mundo antigo à era digital

O que têm em comum as ações triviais de passear pelo centro histórico de uma cidade e de digitar num teclado? Elas têm a ver com o momento em que o corpo passou a imprimir palavras no papel. Eu explico.

Em meados do século XV, o desenvolvimento da prensa móvel abre espaço para um novo modo de guardar e transmitir informações, de pensar, de organizar coisas e de relação com o ambiente. Isso porque a lógica das máquinas de impressão – e dos livros organizados em linhas, parágrafos, capítulos, volumes – estimularam uma perspectiva de sistematização da realidade. Encarando-a a partir de princípios matemáticos e de ordenamento.

Um exemplo são as representações gráficas do globo terrestre. Definir territórios de modo geométrico leva ao aprimoramento das rotas de navegação, à demarcação de fronteiras e de propriedades de terras, e traz para o espaço urbano a busca por uma forma estética sistematizada, por meio de ruas, edifícios, bairros, equipamentos urbanos.

Essa transformação no entendimento e na relação com o espaço estende-se até outros fenômenos político-sociais, como as missões de colonização e evangelização. Isso porque substituíam a mentalidade e o espaço nativos pelas formas de concepção dos conquistadores europeus. E mesmo nas metrópoles europeias surge uma cultura de imposição para lidar com os problemas da expansão urbana pós-revolução industrial. A organização e o controle do espaço tornam-se uma prioridade para governos, políticos e sociedade. E a arquitetura é aplicada para mudar o estilo de vida dos cidadãos.

A sistematização da vida e dos ambientes exprime uma forma de tornar o espaço conhecido, sem ameaças, dominado. É uma forma de habitar pela conquista do ambiente. O espaço, a sociedade, os corpos passam a ser moldados assim como a palavra impressa molda as palavras e as lógicas do pensamento sobre o papel.

Esse modelo mental torna-se tão arraigado que, mesmo na era digital e da comunicação em rede, ele continua impresso na geografia das cidades e nos corpos que digitam.

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