Outros impulsos para quarentenas em família

Mães e filhas se juntaram numa coincidência inpiradora nas Experiências de Corpo e Movimento desta semana. Em uma das telas, duas jovens irmãs, que navegam pelas atividades do ConeCsoma há alguns anos, estavam acompanhadas pela mãe. Em outra tela, uma bailarina ativista, parceira há tempos, reuniu a filha e uma amiga para sensibilizarem a percepção e ativarem os corpos.

O tema da noite já era bem instigante – relações com a gravidade – mas a participação das mães e filhas juntas trouxe um sentido de intimidade e partilha para a experiência que foi inspirador. Vê-las juntas, em suas casas, experimentando dinâmicas de movimento, deu a sensação de um ritual de transformação da quarentena. Um laboratório em tempo real do que se ouve com frequência nas aulas: o corpo tem a potência de modificar o modo como nos relacionamos com os outros e com o ambiente

O movimento socioambiental acompanha o mundo em transformação?

A pandemia mostrou que, além de conhecimento formal, é preciso nutrir o espírito e os afetos. Estes elementos costumam ser menosprezados no discurso socioambiental, o que ajuda a explicar por que preservar a natureza é algo bem visto nas pesquisas, mas sentido como algo distante pelas pessoas no dia-a-dia

Fomos todos lançados em uma espécie de laboratório em que os experimentos pandêmicos questionam não só as relações com o ambiente, as dinâmicas da economia e as desigualdades na sociedade, mas também os laços de família, as fragilidades do corpo, as possibilidades e limites do virtual, o lugar do contato presencial no século XXI, as condições para a saúde mental, os modos de pensar.

Mas quem acompanha as ações, pesquisas e discursos dos agentes que sustentam a pauta socioambiental reconhece apenas parte desses elementos nos temas abordados – com destaque para a relação entre coronavírus, perda da biodiversidade e lições para a questão climática.

O mundo em pandemia revela que a perspectiva integrada tão cara à sustentabilidade não diz respeito apenas à interdependência entre dimensões ambientais, econômicas e sociais. A vida íntima de cada pessoa em quarentena, em seus matizes emocionais, subjetivos e relacionais, agora está claramente ligada aos rumos do planeta. E são estes seres humanos que ajudarão a delinear prioridades no que está por vir.

Sobre esse futuro incerto, argumentos racionais têm sido apresentados com certa desenvoltura e apontam para a relevância das consequências do desequilíbrio ecossistêmico, da cooperação entre áreas de conhecimento, da demanda por instituições e governança consistentes, e da capacidade de adaptação humana. Mas tais argumentos estão restritos à ordem pragmática: como analisar, como operar, como reestruturar, como resolver.

Essa é uma realidade que se repete mundo afora, onde possíveis desdobramentos da pandemia incluem um plano de recuperação na Europa associado à questão do clima, e a indicação de que Joe Biden fará do Green New Deal sua bandeira de campanha para a recuperação da economia nos Estados Unidos.

No entanto, o pragmatismo dessas estratégias guarda um estímulo de fundo mais emocional: o diálogo com anseios da juventude, personificada no impulso apaixonado de Greta Thunberg, na Europa, e nas vozes dos jovens seguidores de Bernie Senders, nos EUA, confiantes de que podem mudar o mundo. Os sinais de ajuste de rota no Hemisfério Norte poderiam até estimular a China a intensificar o coeficiente verde de suas ações pós-pandemia.

Já no Brasil, esse panorama não implica uma grande guinada, uma vez que o atual governo é avesso a agregar o elemento socioambiental ao desenvolvimento, enquanto o Congresso é bastante conservador – o que poderia representar uma barreira a políticas de caráter mais sustentável, mesmo na hipótese de uma mudança de governo. Nesse contexto, a opinião pública seria essencial para impulsionar uma retomada econômica que valorize natureza e sociedade.

Especialistas e entusiastas que dispõem de espaço nas mídias podem engrossar o coro da opinião pública que defende uma recuperação mais verde e inclusiva no Brasil, se o quadro internacional de fato se mover no sentido de novas economias descarbonizadas. A pressão consistente nas redes sociais é o que hoje contribui decisivamente para mudar os humores de políticos e organizações. A população, entretanto, agrega impulso limitado a essa dinâmica, já que historicamente defende a integridade socioambiental por espasmos que surgem das grandes hecatombes.

Nesse sentido, imaginar um país que siga sua vocação de economia verde e inclusiva, e acompanhe uma eventual mudança nos rumos da história global, significa olhar não só para os argumentos lógicos que apoiam essa guinada. É também contar com um espírito coletivo permanente que de fato sinta o valor de atrelar a economia à preservação da natureza e das pessoas afetadas por ela. Ou seja, é preciso, para além de uma abordagem racional, estimular a sensibilidade brasileira, tão combalida pela história recente da polarização e dos negacionismos.

Ailton Krenak tem repetido que uma enorme falha na concepção de “desenvolvimento sustentável” é que este não dialoga com a ausência de intimidade e do sagrado na relação dos cidadãos com a natureza.

Sim, a ciência é fundamental, assim como a política. Mas o que a pandemia tem nos ensinado é que juntamente com as questões básicas da existência – comida, renda, segurança, saúde – estamos acometidos e identificados também por questões mais subjetivas: falta de abraço, saudades de pessoas queridas, dificuldade nos relacionamentos em casa, ansiedade entre paredes e telas, privação de mobilidade física e geográfica, baixa inspiração, instabilidade na saúde mental, afrouxamento das aspirações humanas, fé colocada à prova…

Para o corpo, que é nosso universo de percepção e expressão no mundo, não há distinção: se conseguir o que comer mas estiver prejudicado nos aspectos sensíveis, ainda assim sentirá um vazio.

Trocando em miúdos, as ações humanas e a pauta socioambiental estão atreladas a elementos que dão sentido à vida, de modo geral. A vida com sentido tem valor e é mais bem cuidada. A vida como números e dados digitais é mais descartável, pois não instiga afeto. Estabelecer vínculo é, portanto, essencial para dar sentido à vida, seja na dimensão macro que nos conecta à ecosfera, seja nutrindo essências humanas. A falta de sentido na vida e de vínculos contribui enormemente para atitudes que degradam a natureza, vitimizam pessoas na sociedade, geram comportamentos autodestrutivos.

Tal constatação é ainda mais relevante nesse momento de isolamento social, que reduz a potência existencial, experiencial e relacional do humano, adensando um estado coletivo de ansiedade e escassez sobre o sentido da vida. É urgente, portanto, integrar o conhecimento formal com a necessidade de nutrir o espírito, os afetos. Elementos estes que comumente são menosprezados no discurso socioambiental e ajudam a explicar por que preservar a natureza é algo bem visto nas pesquisas, porém é sentido como distante pelas pessoas no dia-a-dia.

No mundo da lógica racional, sempre foi óbvia para o movimento socioambiental a necessidade de apresentar os dados e apontar os dedos. Mas em um mundo privado de afetos, ansiando por vínculo, o diálogo ativista com as transformações de que tanto se fala deve também empenhar sua dose de mudança. Instigar ainda mais pessoas a se envolverem com a pauta socioambiental de modo perene não depende apenas de boas imagens, discursos marotos, manifestações ruidosas e dados irrefutáveis.

É preciso que os cidadãos estejam nutridos em seu arranjo sensível para estabelecer vínculos e uma relação de cuidado nas dimensões do si mesmo, do outro, do coletivo, do ecossistêmico.

O movimento socioambiental aposta que é possível desviar a humanidade da rota que leva a mundo de epidemias sem fim, catástrofes climáticas, extinção da biodiversidade e disrupção de ciclos naturais. Então é preciso focar não só nos problemas, mas também no principal fator que determina se e como cuidamos da vida: as camadas profundas do humano. Um desafio hercúleo, de fato, mas que responde à complexidade da crise que vivemos.

Artigo publicado na coluna de Ricardo Barretto em maio na Revista Página22:

O movimento socioambiental acompanha o mundo em transformação?

Ampliar o horizonte de pessoas e organizações a partir do corpo

O corpo é uma rede viva que se relaciona com o mundo por meio de sensação, sentimento, movimento e pensamento. Mover e explorar o universo corporal traz vigor e sensibilidade. Gera também descobertas, conhecimento e transformações que vão além do próprio corpo.

O projeto ConeCsoma® ajuda a acessar essa potência corporal para indivíduos, grupos e organizações, por meio de conteúdo digital, de um espaço-laboratório com aulas e oficinas, e de atividades para promover desenvolvimento pessoal, inovar a educação superior, e levar novas perspectivas a organizações.

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Foto: Human Blood Cells – ZeissMicroscopy